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Túnel do Tempo: Ao sabor do vento

Matéria publicada na revista Super Interessante em dezembro de 1997

No clássico A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, o escritor francês Júlio Verne imaginou uma viagem ao redor do planeta realizada por um balonista, Phileas Fogg. Em 1875, quando o livro foi publicado, dar a volta na Terra era uma aventura e tanto, mesmo com escalas, e o livro parecia ficção científica. Com a invenção do avião, tornou-se banal transpor grandes distâncias. O que leva, então, alguém a boiar vinte dias e vinte noites acima das nuvens, guiado pelas correntes de vento, dentro de uma pequena cabine presa a uma bolha de gás, debaixo de um maçarico cuja chama chega a 3 metros de altura? Talvez a experiência etérea de ver a Terra de cima enquanto flana em silêncio pelo espaço. Ou a volúpia de quebrar limites. De Júlio Verne para cá, circunavegar a Terra ficou fácil, de barco, avião e até de foguete. De balão mesmo, ninguém conseguiu até hoje percorrer os 40 000 quilômetros do planeta sem parar. Quatro competidores vão tentar nos próximos meses. Mas três já se estatelaram no chão em janeiro passado.
O Virgin Global Challenger, sobrevoa o Marrocos, placidamente, a 1 000 metros de altura, em janeiro deste ano. Logo atrás desta cadeia de montanhas nevadas – chamada Atlas – ele será engolfado por ventos perigosos e terá que descer
Esporte para corajosos
Os três primeiros balonistas que retornaram sãos ao solo não puderam descrever os detalhes da experiência. Eram um galo, um pato e uma ovelha. O vôo ocorreu em 1783 e o sucesso encorajou o físico francês Jean-François Pilâtre de Rozier (1756-1785) a encarar a cesta e entrar para a História como o piloto do primeiro vôo tripulado. Não satisfeito, Rozier inventou um novo tipo de balão mas caiu no Canal da Mancha, entre a França e a Inglaterra, ao testá-lo em 1785. Morreu no desastre, mas o modelo era tão bom que é usado até hoje. Em 200 anos, a tecnologia do balonismo foi aprimorada, só que os riscos continuam. O problema é a pouca dirigibilidade do aparelho, praticamente entregue ao sabor do vento. O piloto só pode subir e descer para pegar as correntes que o levem aonde ele quer ir. Uma espécie de asa-delta sem as asas.
Quer dizer, se a idéia é dar um passeio rápido, num dia de sol, tudo bem, os balões são seguros. Agora, se o assunto é circunavegar a Terra, sem paradas, em três semanas de viagem non-stop, com violentas mudanças de temperatura, sono, cãibras, chuva, sol, furacões e raios, o quadro muda de figura. Para se ter uma idéia, partindo do Hemisfério Norte, o melhor período para sair é o inverno, quando é possível pegar carona na corrente de Rossby, que sopra a 100 quilômetros por hora entre 10 000 e 15 000 metros de altura. O sujeito tem que ter alguma coisa de maluco para voar na mesma altura que os aviões de carreira pendurado numa bolha.
Um excêntrico colecionador de recordes
Steve Fossett é um caso raro de loucura e excelência. Próspero corretor da Bolsa de Valores de Chicago, diverte-se em colecionar títulos: escalou as mais altas montanhas do mundo, atravessou a nado o Canal da Mancha e o Estreito de Dardanellos, na Turquia, bateu oito recordes de navegação a vela e três de balonismo. Agora, quer ganhar a prova de circunavegação do globo, monitorada pela Federação Aeronáutica Internacional desde 1981, voando sozinho. E tem mais: seu rozier Solo Spirit, embora voe a 10 000 metros de altura, como um Boeing 747, não tem cabine pressurizada! Ou seja, ele irá até o limite de altitude considerado suportável fora de um compartimento hermeticamente fechado. Fossett precisará, ao mesmo tempo, cuidar de instrumentos, falar ao rádio com os meteorologistas, vigiar o vento e os aviões. “O mais difícil”, disse ele à SUPER, “é administrar os ciclos de sono e vigília.” Ele afirma que dorme apenas 2 horas por dia, em cochilos de 15 minutos.
Neste ano, o Solo Spirit decolou de Saint Louis, nos Estados Unidos, em 13 de janeiro, cruzou o Atlântico e chegou à Argélia, batendo os recordes de tempo de vôo (6 dias e 2 horas) e de distância (16 500 quilômetros). Então, foi forçado a desviar para o sul e contornar a Líbia, que ameaçou derrubá-lo se ele invadisse o seu espaço aéreo. Subiu e desceu várias vezes para pegar as correntes certas e gastou muito gás. “Depois do desvio, percebi que o combustível acabaria no meio do Oceano Pacífico.” Assim, em 20 de janeiro, precipitou a queda, na Índia. Foi quem chegou mais longe. Em janeiro próximo, vai tentar de novo.
Propaganda acima de tudo
“Enquanto perdíamos altitude violentamente, eu só pensava no meu filho Sam, de 9 anos”, disse Richard Branson à SUPER. “Éramos três tripulantes e tínhamos as mãos fixas nos acionadores de pára-quedas.” Ele confessa que quase fez um juramento: “Se eu escapar com vida, nunca mais repito a experiência.” Quando a gôndola finalmente bateu no solo, foi como pousar na Lua, tamanha a excitação. “Gritávamos e nos abraçávamos, como loucos. Apareceram uns nômades com turbante na cabeça bradando
‘Alá!’. Respondemos em coro:
“Alá, irmão!”
Dono do império Virgin – que inclui desde a Virgin Records até uma empresa aérea –, o inglês Branson adora emoções fortes e muita divulgação. Pratica páraquedismo e outros esportes radicais. Em 1987, fez a primeira travessia do Oceano Atlântico com um balão só de ar quente, junto com o piloto Per Lindstrand.
No dia 6 de janeiro deste ano, os dois, mais Alex Richie, partiram no Virgin Global Challenger, de Marrakesh, no Marrocos, para dar a volta ao mundo. No dia seguinte, quando sobrevoavam a cadeia de montanhas Atlas, foram puxados violentamente para baixo por ventos rotores, típicos de regiões montanhosas, que empurram os objetos para o solo. Sem saída, foram forçados a descer no Deserto da Argélia. Mas não esmoreceram. Em janeiro próximo vão começar de novo, partindo do mesmo lugar. “É como se fosse um vírus”, diz o magnata radical. “Não dá para evitar.”
Saiu da montanha e caiu no mar
“O balonismo é uma boa metáfora para a vida”, diz o psiquiatra suíço Bertrand Piccard. “As pessoas acham que estão à mercê do vento aleatório das circunstâncias quando, na verdade, podem interferir, alterando a rota da vida para patamares mais elevados.” A frase é boa, mas Piccard tem mais pedigree como balonista do que como filósofo: é neto do físico suíço Auguste Piccard (1884-1962), inventor da cabine pressurizada e o primeiro homem a entrar na estratosfera, por sinal a bordo de um balão. Vovô Piccard estudou os raios cósmicos, Meteorologia e fez a Cartografia progredir, permitindo uma melhor observação da geografia terrestre. E seu espírito aventureiro, pelo jeito, era hereditário. O filho foi um explorador submarino importante e agora o neto quer ser o primeiro a dar a volta ao mundo ao sabor do vento.
Na primeira tentativa, em 12 de janeiro passado, Bertrand fracassou. Ele e Wes Verstraeten decolaram de Chateau d’Oex, nos Alpes suíços, com o Breitling Orbiter. Piccard e Verstraeten usam querosene, que é mais energético, em lugar de propano, para alimentar a chama que esquenta o ar. Só que o querosene vaza fácil e foi isso o que aconteceu, forçando o pouso no mesmo dia da partida, em pleno Mar Mediterrâneo. Piccard não se assustou. “Por mais contraditório que pareça, eu e o Wes temos mais medo de olhar pela janela de um prédio alto do que pela escotilha da gôndola.”
A Nasa decide entrar na corrida
Em 1998, haverá um novo competidor na circunavegação do planeta. O Dymocks Flyer Odyssey é o único balão da prova que não é do tipo rozier. Usa só hélio, tem 140 metros de altura, o equivalente a um edifício de 45 andares, e foi construído com tecnologia da Nasa (a agência espacial americana), para passear na estratosfera (depois da troposfera, a segunda camada da atmosfera). A disputa vai esquentar, porque enquanto os rozier voam a 10 000 metros, no limite da troposfera, o Dymocks chega a 39 000 metros. Voa sobre as nuvens e os fenômenos meteorológicos mais perigosos, como chuvas, raios e nevascas. A desvantagem é que ele sofrerá variações extremas de temperatura, típicas da estratosfera, na qual se passa, em 24 horas, de 10 graus positivos a 55 graus negativos. Além disso, vai estar exposto à radiação ultravioleta do Sol, pois voa muito próximo à camada de ozônio. O Dymocks é uma mistura de sonda meteorológica e ogiva espacial adaptada para suportar quedas abissais de temperatura. “Ela é muito similar à cápsula Apollo”, disse à SUPER o norte-americano Bob Martin, misto de piloto e jornalista.
Jornalismo aventureiro
Foi quando fazia uma reportagem com a Nasa que Martin teve a idéia da aventura. Dados da agência revelavam que balões estratosféricos usados em medições científicas davam uma volta completa na Terra antes de voltarem ao chão. Então, veio o estalo: por que não tripular um artefato desse tipo?
Depois de cinco anos de testes, muita busca de patrocínio e da ajuda dos cientistas da agência espacial americana, o superbalão ficou pronto para entrar na competição. Dymocks é o nome do principal patrocinador: uma cadeia de livrarias australiana. Por isso ele vai partir da Austrália.
A aeronave vai esnobar a Corrente de Rossby, que os rozier usam, e subir até a estratosfera para viajar com ventos no sentido oposto, para oeste. “Uma das regras da competição”, diz Martin, “é manter a rota de circunavegação abaixo dos círculos polares”. Do contrário, bastaria dar uma pequena volta sobre o pólo e pronto. O interior da cesta high-tech terá música, livros e banquetes de astronauta, com muita comida desidratada. “O maior desafio”, brinca Martin, “será conviver vinte dias com meu parceiro, John Wallington, nesse espaço confinado.”

Foto: Steve Fossett. Divulgação.

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